Norse Ice Mitologia nórdica

Os Nove Mundos

Niflheim e Muspelheim: o gelo e o fogo que fazem o mundo

Antes de qualquer deus existir, havia duas regiões extremas e um vazio entre elas. Tudo o que veio depois nasceu do ponto onde as duas se tocaram.

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A cosmogonia nórdica não começa com um criador. Começa com duas condições físicas extremas e um espaço vazio entre elas. Frio de um lado, calor do outro, nada no meio — e do encontro, matéria. É uma das cosmogonias mais materialistas que uma cultura antiga produziu.

Niflheim

O nome combina nifl, névoa, com heimr, morada. É uma região de frio, escuridão e vapor, situada ao norte e abaixo. Nela está Hvergelmir, descrita como a fonte de onde nascem todos os rios. Entre eles estão os Élivágar, cujas águas carregam veneno que congela em camadas sucessivas, formando geada. É dessa geada que surge o primeiro ser. Ali também se encontra Níðhöggr, a criatura que rói uma das raízes de Yggdrasil por baixo, e que aparece em uma das últimas estrofes de Völuspá voando com cadáveres nas asas — imagem cuja função no poema é discutida até hoje.

O domínio dos mortos é tratado em Svartálfaheim e Helheim.

Muspelheim

A região do fogo, situada ao sul. É descrita como quente e luminosa a ponto de ser intransitável para quem não nasceu ali. Sua fronteira é guardada por Surtr, uma figura que porta uma espada flamejante e que, segundo as fontes, existia antes dos deuses e sobreviverá a eles. Ele não é um jötunn comum nem faz parte de nenhuma das genealogias divinas: aparece como força autônoma, sem história pessoal, sem motivação declarada e sem interação com ninguém até o momento em que o mundo acaba. Os habitantes da região são chamados de filhos de Muspell. Também eles não têm narrativa: existem para atravessar a ponte no fim do mundo.

Surtr é a única figura que está presente no primeiro e no último momento da existência do mundo, sem fazer nada no intervalo.

Observação sobre a estrutura de Völuspá

O encontro

  1. Ginnungagap

    Entre as duas regiões existe um vazio. O termo é de tradução difícil; propõe-se algo como "abismo escancarado" ou "vazio carregado de potência mágica".

  2. A geada avança

    As águas venenosas de Niflheim escorrem e congelam camada sobre camada, avançando sobre o vazio a partir do norte.

  3. O calor alcança o gelo

    Do sul, faíscas e ar quente de Muspelheim chegam à massa congelada. O gelo começa a derreter.

  4. A primeira forma

    Das gotas surge Ymir, o primeiro ser. Da mesma geada derretida surge a vaca Auðhumla, que o alimenta e que, lambendo o gelo salgado, libera outro ser, ancestral dos deuses.

  5. A matéria do mundo

    Ymir é morto por seus descendentes e seu corpo se torna a terra, o mar, o céu e as montanhas. Faíscas de Muspelheim são colocadas no céu como astros.

O relato completo está em A criação do mundo.

A simetria com o fim

A cosmologia nórdica fecha o círculo. As mesmas duas forças que criam o mundo o destroem. O Ragnarök é anunciado pelo Fimbulvetr, um inverno de três estações sem verão entre elas — o frio voltando. E termina quando Surtr atravessa a ponte e incendeia tudo — o fogo voltando. Entre o primeiro e o último momento, o mundo existe precariamente no intervalo entre dois extremos, e acaba quando os extremos se reafirmam.

Uma cosmogonia sem criador

Vale sublinhar o que essa estrutura não tem. Não há vontade divina anterior ao mundo, não há criação a partir do nada, não há plano. Há condições físicas, contato entre elas e um resultado. Os deuses aparecem depois, como descendentes do que se formou, e o que fazem não é criar do zero: é reorganizar material já existente, matando e desmembrando. Mesmo o céu é um crânio, e mesmo as estrelas são faíscas emprestadas de outro lugar.

Fontes deste guia

As obras abaixo são os textos medievais e os materiais arqueológicos em que este guia se apoia. Nenhum deles é contemporâneo aos eventos narrados, e as traduções disponíveis divergem em pontos importantes.

  • Völuspá e Vafþrúðnismál (Edda Poética) Descrevem o vazio primordial e a origem do primeiro ser a partir da geada.
  • Gylfaginning (Edda em Prosa) Fornece o relato sistemático das duas regiões e de seu encontro; boa parte da estrutura é organização de Snorri.
  • Grímnismál (Edda Poética) Menciona a fonte Hvergelmir e os rios que dela partem.

Uma explicação mais longa sobre a formação, os limites e as divergências dessas obras está na página de fontes. Encontrou um erro ou uma imprecisão? Peça uma correção.