Norse Ice Mitologia nórdica

Cosmologia

A criação do mundo: um vazio, um cadáver e uma vaca

Sem criador, sem plano e sem palavra criadora. O mundo nórdico começa com duas condições físicas se tocando e termina de ser construído com o corpo desmembrado do primeiro ser.

Atualizado
Leitura
5 min
Nível
Introdutório

Comparada a outras cosmogonias antigas, a nórdica é notavelmente pouco espiritual. Não há uma vontade que antecede a matéria, nem uma palavra que faz surgir do nada. Há frio, calor, um espaço vazio entre os dois e o que acontece quando gelo derrete perto de fogo.

O começo

  1. Ginnungagap

    No princípio não havia areia, nem mar, nem ondas frias, nem terra, nem céu, nem grama. Havia apenas o vazio escancarado. Ao norte dele, a região de névoa e gelo; ao sul, a de fogo.

  2. Os rios venenosos

    Da fonte Hvergelmir, em Niflheim, partem os rios Élivágar. Suas águas carregam veneno que endurece e congela em camadas sucessivas, avançando sobre o vazio.

  3. O encontro

    Do sul, o calor e as faíscas de Muspelheim alcançam a massa congelada. O gelo começa a derreter.

  4. Ymir

    Das gotas toma forma o primeiro ser. Ele é apresentado como hostil e como ancestral de toda a linhagem dos jötnar. Enquanto dorme, gera descendentes a partir do próprio corpo.

  5. Auðhumla

    Da mesma geada derretida surge uma vaca, cujo leite alimenta Ymir. Ela se alimenta lambendo blocos de gelo salgado.

  6. Búri

    Do gelo lambido emerge, ao longo de três dias, um ser: primeiro o cabelo, depois a cabeça, depois o corpo inteiro. Dele descende Borr, que se casa com Bestla, filha de um jötunn.

  7. Os três irmãos

    Do casamento nascem Odin, Vili e Vé — os primeiros deuses e, pela linha materna, também descendentes de jötnar.

A morte de Ymir

Os três irmãos matam Ymir. As fontes não dão motivo. Não há provocação narrada, ofensa registrada nem julgamento. Simplesmente matam. O sangue derramado é tanto que provoca uma inundação em que quase toda a linhagem dos jötnar se afoga. Apenas Bergelmir escapa com sua família, em algo descrito de forma ambígua como uma embarcação ou um recipiente de madeira. Deles descendem todos os jötnar posteriores — o que significa que a hostilidade entre os grupos tem como origem um massacre.

Todo o mundo habitado é feito do corpo de alguém que foi morto para que ele existisse. Não há inocência na fundação.

Consequência do relato cosmogônico

O mundo feito de partes

  • A carne se torna a terra.
  • O sangue se torna o mar e todas as águas.
  • Os ossos se tornam as montanhas.
  • Os dentes e fragmentos de osso se tornam pedras e cascalho.
  • O crânio se torna a abóbada do céu, sustentada nos quatro cantos por anões chamados Norðri, Suðri, Austri e Vestri.
  • Os miolos se tornam as nuvens.
  • As sobrancelhas se tornam a cerca que protege o mundo humano.
  • As larvas que surgiram na carne recebem forma e inteligência e se tornam os anões.
Faíscas trazidas de Muspelheim são colocadas no céu e recebem posições fixas ou trajetórias definidas, tornando-se estrelas, sol e lua. A partir delas passa a ser possível contar os dias e os anos.

O cercado resultante está em Midgard.

Ask e Embla

Três deuses caminham pela praia e encontram dois pedaços de madeira sem destino e sem força. Cada um concede algo: fôlego e vida; entendimento e movimento; forma, fala, audição e visão. Os nomes remetem a árvores: Askr corresponde ao freixo, e Embla tem leitura disputada, com propostas que incluem olmo e videira.

O tempo começa a correr

Depois da criação, os deuses se reúnem na planície Iðavöllr, constroem edifícios, forjam metais, fabricam ferramentas e jogam com peças de ouro. Völuspá descreve esse período como feliz e sem carência. Ele termina com a chegada de três figuras femininas vindas do mundo dos jötnar. O poema não explica o que fazem nem por que sua chegada interrompe a idade de ouro. Logo depois aparecem as Nornas, e o destino passa a existir.

Essa passagem está discutida em As Nornas e o destino.

O que essa cosmogonia revela

Há ainda um ponto estrutural: essa cosmogonia é cíclica. O mundo surge do encontro entre gelo e fogo, e é destruído pelo retorno do gelo e do fogo. Depois, a terra emerge de novo. As fontes não dizem se o ciclo se repetirá indefinidamente — e essa reticência é, ela própria, característica.

Fontes deste guia

As obras abaixo são os textos medievais e os materiais arqueológicos em que este guia se apoia. Nenhum deles é contemporâneo aos eventos narrados, e as traduções disponíveis divergem em pontos importantes.

  • Völuspá (Edda Poética) Apresenta o vazio primordial e a criação dos primeiros humanos, em versos concisos.
  • Vafþrúðnismál (Edda Poética) Fornece, em forma de perguntas e respostas, detalhes sobre a origem de Ymir e a formação do mundo.
  • Grímnismál (Edda Poética) Enumera quais partes do corpo primordial deram origem a quais elementos.
  • Gylfaginning (Edda em Prosa) Reúne tudo em narrativa contínua; boa parte da coerência do relato é organização de Snorri.

Uma explicação mais longa sobre a formação, os limites e as divergências dessas obras está na página de fontes. Encontrou um erro ou uma imprecisão? Peça uma correção.