Norse Ice Mitologia nórdica

Criaturas

Os jötnar: gigantes, ou algo mais complicado

A tradução por "gigantes" sugere tamanho e estupidez. As fontes mostram seres antigos, frequentemente sábios, às vezes belos, com quem os deuses se casam e de quem descendem.

Atualizado
Leitura
5 min
Nível
Introdutório

Chamar os jötnar de gigantes é a decisão de tradução mais influente e mais distorcida da mitologia nórdica. A palavra carrega, nas línguas modernas, a ideia de tamanho descomunal e inteligência limitada. Nas fontes, o que define um jötunn não é o tamanho: é a linhagem e a posição fora da ordem dos deuses.

O problema do vocabulário

As fontes usam mais de uma palavra, e elas não são intercambiáveis com precisão:
  • Jötunn — o termo mais comum e mais neutro; designa a linhagem.
  • Þurs — carrega conotação mais negativa, próxima de "monstro" ou "coisa hostil"; aparece em contextos de maldição e em nomes de runas.
  • Risi — este sim parece implicar estatura grande, e é usado com menos frequência.
  • Troll — mais tardio e mais amplo; em fontes posteriores, designa qualquer criatura hostil sobrenatural.
Traduzir todos por "gigante" achata distinções que existiam. Quando um texto diz que uma jötunn era a mulher mais bela já vista, a palavra "giganta" trabalha contra o sentido.

A origem

Tudo começa com Ymir, o primeiro ser, formado da geada no vazio primordial. Enquanto dorme, ele gera descendentes a partir do próprio corpo: sob o braço e entre as pernas. Dessa linhagem vêm os jötnar. Os deuses também descendem dali. A vaca primordial Auðhumla libera, lambendo o gelo salgado, um ser chamado Búri, cujo filho Borr se casa com Bestla, filha de um jötunn. Desse casamento nascem Odin e seus irmãos. Ou seja: os deuses são, pela linha materna, jötnar. E o primeiro ato deles é matar Ymir e construir o mundo com seu corpo. O sangue derramado provoca uma inundação que mata quase toda a linhagem; apenas Bergelmir e sua família escapam em uma embarcação, e deles descendem todos os jötnar posteriores.

A relação entre deuses e jötnar começa com um assassinato familiar seguido de quase extermínio. Tudo o que vem depois carrega isso.

Consequência da genealogia em Gylfaginning

A cosmogonia completa está em A criação do mundo.

Figuras que vale conhecer

Detentores de conhecimento

Vafþrúðnir é apresentado como o mais sábio dos jötnar. Odin viaja disfarçado até ele apenas para testar seu saber em uma disputa de perguntas. O jötunn responde a tudo sobre a origem do mundo, os astros, o Ragnarök — e só perde quando Odin faz uma pergunta que apenas ele próprio poderia responder. O episódio é revelador. O deus da sabedoria precisa recorrer a uma pergunta impossível para não perder para um jötunn.

Adversários de Thor

Hrungnir aposta corrida com Odin, chega bêbado a Asgard e é morto em duelo por Thor. Um fragmento de sua arma de pedra fica cravado na cabeça do deus. Para a ocasião, os jötnar constroem um combatente de argila, que se revela covarde e é derrubado sem dificuldade. Geirröðr recebe Thor desarmado, por artifício de Loki, e tenta matá-lo com um ferro em brasa. Thor o devolve, atravessando pilar e jötunn. Þrymr rouba Mjölnir e exige Freyja em casamento. É morto na própria festa de núpcias.

Mulheres que entram em Asgard

Skaði chega armada exigindo reparação pela morte do pai. Obtém compensação, casamento e um lugar entre os deuses. Depois do casamento fracassado com Njörðr, volta para as montanhas — e segue sendo mencionada como parte do grupo. Gerðr é desejada por Freyr e cede apenas sob ameaça de maldição. Gunnlöð guarda o hidromel da poesia e é enganada por Odin.

Fora de categoria

Surtr costuma ser listado entre os jötnar, mas as fontes não o incluem em nenhuma genealogia. Ele guarda Muspelheim desde antes dos deuses e incendeia o mundo no fim. Funciona menos como personagem e mais como força.

A assimetria que define tudo

Não são o mal

A oposição é entre dentro e fora, não entre bem e mal. Os jötnar representam o que existe antes e além da ordem estabelecida: mais antigo, mais sábio, não submetido às regras. Os deuses os combatem porque a ordem precisa de fronteira — e se casam com eles porque a ordem também precisa de renovação vinda de fora.

Fontes deste guia

As obras abaixo são os textos medievais e os materiais arqueológicos em que este guia se apoia. Nenhum deles é contemporâneo aos eventos narrados, e as traduções disponíveis divergem em pontos importantes.

  • Vafþrúðnismál (Edda Poética) Apresenta um jötunn cujo conhecimento sobre a origem do mundo rivaliza com o de Odin.
  • Skírnismál, Þrymskviða e Hárbarðsljóð (Edda Poética) Mostram jötnar em situações variadas: desejados, ameaçadores, irônicos.
  • Gylfaginning e Skáldskaparmál (Edda em Prosa) Fornecem a genealogia a partir de Ymir e narram duelos como o de Thor com Hrungnir.

Uma explicação mais longa sobre a formação, os limites e as divergências dessas obras está na página de fontes. Encontrou um erro ou uma imprecisão? Peça uma correção.