Norse Ice Mitologia nórdica

Os Nove Mundos

Midgard: o recinto do meio

O mundo humano é, literalmente, um cercado: um espaço protegido construído com os restos de um corpo, cercado por um mar onde uma serpente morde a própria cauda.

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O nome diz quase tudo. Miðgarðr combina "meio" com garðr, a palavra usada para o cercado de uma propriedade rural. Não é "mundo do meio" no sentido de estar entre o céu e o inferno: é o pátio central, a área cercada e defendida, em oposição ao que fica fora da cerca.

Para uma população que vivia em fazendas isoladas, separadas do restante por floresta, montanha ou mar, essa metáfora não era abstrata. O cosmos foi imaginado com a mesma lógica da propriedade: dentro da cerca, ordem e segurança; fora dela, o que não se controla.

Feito de um corpo

A criação de Midgard é um desmembramento. O primeiro ser, Ymir, é morto pelos primeiros deuses, e cada parte de seu corpo vira uma parte do mundo:
  • A carne se torna a terra.
  • O sangue se torna o mar e as águas.
  • Os ossos se tornam as montanhas.
  • Os dentes e fragmentos ósseos se tornam pedras e cascalho.
  • O crânio se torna o céu, sustentado em quatro pontos por anões.
  • Os miolos se tornam as nuvens.
  • As sobrancelhas se tornam a cerca que protege o mundo humano.
Não há criação a partir do nada, nem por palavra ou vontade. Há matéria-prima, e a matéria-prima é um cadáver. O mundo humano é construído com os restos de algo que foi morto para que ele existisse — e esse algo é ancestral dos próprios jötnar, o que torna a hostilidade entre eles e os deuses uma questão de sangue.

A cosmogonia completa está em A criação do mundo.

Ask e Embla

Os primeiros humanos não são moldados em barro nem gerados por divindades. Segundo Völuspá, três deuses caminham pela praia e encontram dois pedaços de madeira, sem destino e sem força. Cada um dá algo: fôlego e vida, entendimento e movimento, aparência, fala, audição e visão. Os nomes remetem a árvores. Askr corresponde ao freixo; Embla é de leitura mais incerta, com propostas que vão de olmo a videira. A identidade dos três doadores também varia: Völuspá nomeia Odin, Hœnir e Lóðurr, enquanto Snorri substitui os dois últimos pelos irmãos de Odin.

O limite do mundo

Além da terra habitada fica o mar, e no mar está Jörmungandr, a serpente que cresceu tanto que envolve Midgard inteiro e morde a própria cauda. Ela funciona como fronteira viva. Enquanto permanece no lugar, o cercado está fechado e o mundo tem forma. Quando se soltar, a linha que define o mundo se rompe — e é exatamente isso que o Ragnarök descreve. Para quem vivia de navegação e pesca, um mar que é simultaneamente estrada e limite absoluto era experiência cotidiana, não abstração.

A criatura tem guia próprio em Jörmungandr.

A relação com os outros mundos

O que o conceito revela

A palavra garðr aparece nos três nomes que estruturam a cosmologia: Ásgarðr, o recinto dos deuses; Miðgarðr, o recinto do meio; Útgarðr, literalmente "o recinto de fora" — nome do lugar nos confins do território dos jötnar. Ou seja, a oposição fundamental não é entre bem e mal, nem entre alto e baixo, mas entre dentro e fora. Dentro há lei, parentesco, obrigação recíproca e proteção. Fora há o que não obedece a essas regras. Os jötnar não são maus: são de fora.

Uma cultura que organiza o universo pela lógica da cerca está dizendo algo sobre como via a própria condição: pequena, cercada, sustentada por acordos e sempre a uma ruptura de distância do que está do lado de fora.

Leitura do vocabulário cosmológico nórdico

O fim e o recomeço

No Ragnarök, Midgard afunda. Völuspá descreve o mar subindo sobre a terra e as estrelas desaparecendo do céu. Mas o poema continua: a terra emerge de novo, verde, com cachoeiras e águias, e os campos produzem sem serem semeados. Dois humanos sobrevivem escondidos, Líf e Lífþrasir, alimentando-se do orvalho da manhã, e repovoam o mundo. O recinto do meio é refeito — e as fontes não dizem se, desta vez, ele durará.

Fontes deste guia

As obras abaixo são os textos medievais e os materiais arqueológicos em que este guia se apoia. Nenhum deles é contemporâneo aos eventos narrados, e as traduções disponíveis divergem em pontos importantes.

  • Völuspá (Edda Poética) Narra a formação do mundo e a criação dos primeiros humanos a partir de madeira encontrada na praia.
  • Grímnismál e Vafþrúðnismál (Edda Poética) Detalham quais partes do corpo primordial deram origem a quais elementos do mundo.
  • Gylfaginning (Edda em Prosa) Reúne e sistematiza esses relatos, acrescentando a proteção construída contra os jötnar.

Uma explicação mais longa sobre a formação, os limites e as divergências dessas obras está na página de fontes. Encontrou um erro ou uma imprecisão? Peça uma correção.