Ragnarök: o fim que todos conhecem de antemão
Não é um castigo nem uma batalha entre bem e mal. É o desfecho previsto de um processo que começou muito antes, e do qual nenhum dos envolvidos consegue sair.
Uma vidente é despertada e interrogada por Odin. Ela narra o começo do mundo, atravessa toda a história dos deuses e chega ao fim — descrevendo como cada um deles morrerá, incluindo quem a interroga. Odin escuta até o final. É assim que a mitologia nórdica apresenta seu próprio apocalipse: como informação já disponível, entregue ao principal interessado, que nada faz para alterá-la.
O nome e uma confusão famosa
A forma mais bem atestada é ragna rök, que combina o genitivo de "poderes" ou "deuses" com um termo que significa destino, desfecho ou juízo. A tradução mais próxima seria algo como "o destino dos poderes". Existe também a forma ragnarøkkr, com uma palavra diferente que significa crepúsculo ou escurecimento. Snorri a utiliza, e foi ela que originou a expressão "crepúsculo dos deuses", consagrada no século XIX. As duas formas provavelmente coexistiam, e a segunda pode ser reinterpretação da primeira.Os sinais
O colapso social
Völuspá descreve um tempo de machado e de espada, de escudos partidos, de vento e de lobos. Irmãos se matam, parentes rompem laços, ninguém poupa ninguém. Note-se a ordem: o mundo social se desfaz antes do mundo físico.
O Fimbulvetr
Três invernos consecutivos sem verão entre eles. Neve de todas as direções, geada intensa, vento cortante. O sol não aquece.
Os astros devorados
Os lobos que perseguem o sol e a lua finalmente os alcançam. As estrelas desaparecem do céu.
A terra treme
Montanhas desmoronam, todas as amarras se rompem. Fenrir se solta. Loki se liberta. A serpente se revolve e o mar sobe sobre a terra.
O alarme
Heimdall sopra o Gjallarhorn. Odin cavalga até a fonte de Mímir para consultá-la uma última vez. O velho freixo estremece e geme.
O avanço
As forças hostis convergem de várias direções. Do mar vem Naglfar, uma embarcação que, segundo Snorri, é feita das unhas dos mortos — motivo pelo qual, acrescenta ele, convém cortar as unhas dos defuntos antes do sepultamento. Do sul vêm os filhos de Muspell, comandados por Surtr, cuja espada brilha mais que o sol. Ao atravessarem, a ponte Bifröst se parte sob seu peso. Fenrir avança com a mandíbula inferior raspando o chão e a superior tocando o céu. A serpente sobe do mar cuspindo veneno sobre o ar e a água. Todos convergem para a planície de Vígríðr.Os combates
Cada confronto já estava definido. Ninguém escolhe adversário.- Odin contra Fenrir. O lobo o devora. Em seguida, Víðarr pisa na mandíbula inferior do animal e rasga a superior, vingando o pai.
- Thor contra Jörmungandr. Ele mata a serpente, recua nove passos e cai morto pelo veneno.
- Freyr contra Surtr. Desarmado, porque entregou a própria espada muito tempo antes para conseguir um casamento. Morre.
- Tyr contra Garmr. Os dois se matam mutuamente.
- Heimdall contra Loki. Também se matam mutuamente — o vigia e o infiltrado, encerrando a conta.
O sol escurece, a terra afunda no mar, as estrelas brilhantes somem do céu. O vapor sobe e a chama alcança o próprio firmamento.
O que vem depois
E então o poema continua. A terra emerge de novo do mar, verde e nova. Cachoeiras caem, uma águia sobrevoa as montanhas caçando peixe, os campos produzem sem terem sido semeados. Os deuses sobreviventes se reúnem na planície Iðavöllr e encontram na grama as peças de ouro com que jogavam no início dos tempos. Conversam sobre os acontecimentos e sobre as antigas runas. Baldr e Höðr retornam do mundo dos mortos, reconciliados. Dois humanos, Líf e Lífþrasir, sobrevivem escondidos, alimentando-se do orvalho da manhã, e repovoam o mundo. A filha do sol, nascida antes de a mãe ser devorada, segue o mesmo caminho pelo céu.Influência cristã?
A posição mais defensável é intermediária: o poema provavelmente preserva material antigo, formulado por alguém que vivia em um mundo já cristão e cujo vocabulário e sensibilidade inevitavelmente marcaram o resultado. Separar as camadas com precisão não é possível.O que o episódio diz
O Ragnarök não é punição por pecado. Não há falha moral coletiva que o provoque, nem divindade que o decrete. Ele é o resultado acumulado de decisões concretas: um lobo criado em casa, um juramento quebrado na construção da muralha, um deus morto por traição, um castigo cruel aplicado a Loki. E é conhecido de antemão por todos os envolvidos. Odin passa a existência acumulando conhecimento e reunindo guerreiros sabendo o desfecho. Isso não é inutilidade: é a proposição central dessa visão de mundo. O valor do que se faz não depende de o resultado ser favorável.A concepção de destino que sustenta tudo isso está em As Nornas e o destino.
Fontes deste guia
As obras abaixo são os textos medievais e os materiais arqueológicos em que este guia se apoia. Nenhum deles é contemporâneo aos eventos narrados, e as traduções disponíveis divergem em pontos importantes.
- Völuspá (Edda Poética) A fonte central: uma vidente narra a Odin o começo e o fim do mundo. É o poema mais importante do corpus.
- Vafþrúðnismál (Edda Poética) Acrescenta detalhes sobre os sobreviventes e sobre os humanos que escapam.
- Gylfaginning (Edda em Prosa) Organiza a sequência em narrativa contínua e acrescenta elementos não presentes na poesia.
- Cruz de Gosforth, na Inglaterra Monumento de pedra com cenas frequentemente interpretadas como episódios do Ragnarök ao lado de imagens cristãs; a identificação é amplamente aceita, sem ser definitiva.
Uma explicação mais longa sobre a formação, os limites e as divergências dessas obras está na página de fontes. Encontrou um erro ou uma imprecisão? Peça uma correção.
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- Cosmologia As Nornas e o destino Quem são as Nornas, o que significam os termos nórdicos ligados a destino e por que fatalismo não é a palavra certa.


