A morte de Baldr: a tragédia que ninguém conseguiu evitar
Uma mãe faz tudo o que é humanamente possível. Um deus cego atira sem saber. Um mundo inteiro chora, menos uma pessoa. É a história mais bem construída do corpus nórdico.
É a narrativa mais bem estruturada da mitologia nórdica. Cada elemento introduzido é usado, cada precaução tomada se volta contra quem a tomou, e o desfecho é inevitável sem ser arbitrário. Se houvesse um único texto para demonstrar que essa tradição produzia literatura de alto nível, seria este.
Os sonhos
Tudo começa com sonhos. Baldr passa a ter visões noturnas que anunciam perigo para sua vida e conta aos outros deuses. A assembleia se reúne. Odin decide verificar pessoalmente. Sela Sleipnir e cavalga até o mundo dos mortos, onde desperta uma vidente enterrada. Ela resiste, diz que está há muito tempo coberta de neve e chuva, mas responde. O diálogo é breve e devastador. Odin pergunta para quem estão preparados os bancos e o hidromel que vê ali. Ela responde que a bebida está pronta e coberta, à espera de Baldr. Pergunta quem o matará; ela responde que será Höðr. Pergunta quem vingará; ela responde que um filho de Odin, ainda não nascido, nascerá para isso. Então Odin faz uma pergunta que revela quem é, e a vidente se recusa a continuar.Os juramentos
Frigg age. Percorre o mundo e obtém de tudo o que existe a promessa de não ferir seu filho: fogo e água, ferro e todos os metais, pedras, terra, árvores, doenças, animais, aves, venenos e serpentes. Um único broto é dispensado. O visco crescia a oeste do salão e pareceu jovem demais para prestar juramento.O jogo
Com a garantia de invulnerabilidade, os deuses inventam uma diversão. Baldr fica de pé no centro da assembleia e os demais atiram coisas nele — pedras, golpes, projéteis — e nada o atinge. Todos consideram isso uma grande honra. Loki não gosta. Disfarçado de mulher, procura Frigg e conversa com ela sobre o que está acontecendo no salão. Pergunta se realmente nada pode ferir Baldr. Frigg responde que obteve juramento de tudo, exceto de um broto novo a oeste, que considerou pequeno demais.A informação decisiva é obtida com uma pergunta casual, em uma conversa amistosa, de quem não tinha motivo para desconfiar.
O arremesso
Loki colhe o visco e vai até a assembleia. Encontra Höðr, irmão de Baldr, parado à margem, sem participar. Pergunta por que ele não atira como os outros. Höðr responde que é cego e que, além disso, não tem arma. Loki diz que ele deveria honrar o irmão como todos os demais, oferece a haste e se oferece para indicar a direção. Höðr atira. O projétil atravessa Baldr, que cai morto. O texto registra o silêncio que se segue. Nenhum deus consegue falar. Nenhum consegue sequer levantar o corpo, porque estão sem força para isso. E há um detalhe adicional: a vingança imediata é impedida, porque o lugar onde estavam era um espaço de paz onde o derramamento de sangue era proibido.O funeral
O navio
O corpo é levado ao mar, para ser queimado no navio Hringhorni, o maior de todos. Os deuses não conseguem movê-lo. Chamam uma jötunn chamada Hyrrokkin, que chega montada em um lobo e empurra a embarcação com tanta força que faíscas saltam dos roletes e a terra estremece.
Nanna
Ao ver o corpo do marido sendo colocado na pira, Nanna morre de dor. É posta ao lado dele.
O anel
Odin deposita na pira o anel Draupnir, que produzia oito anéis iguais a cada nove noites. Depois, sussurra algo no ouvido do filho morto — e o que foi dito é uma das perguntas impossíveis que ele usará mais tarde para vencer disputas.
O cavalo
O cavalo de Baldr é conduzido à pira com todo o seu arreio.
Os presentes
Comparecem ao funeral os deuses, valquírias, jötnar de montanha e criaturas de toda parte. Thor consagra a pira com o martelo.
A viagem de Hermóðr
Frigg pergunta quem entre os deuses cavalgará até Hel para oferecer resgate. Hermóðr se oferece, monta Sleipnir e parte. Cavalga nove noites por vales escuros e profundos, sem ver nada, até chegar ao rio. A ponte é coberta de ouro reluzente e guardada por uma figura que registra quem passa. Ela observa que cinco tropas de mortos haviam cruzado no dia anterior fazendo menos barulho do que ele sozinho, e que sua cor não é a de um morto. Adiante, o portão. Sleipnir o salta sem tocá-lo. No salão, Hermóðr encontra Baldr sentado no assento de honra. Passa a noite ali e, pela manhã, pede a Hel que o deixe voltar. Hel responde que testará se ele é realmente tão amado quanto se diz: se todas as coisas do mundo, vivas e mortas, chorarem por ele, ele retornará. Se uma única se recusar, ele permanecerá.A recusa
Mensageiros são enviados a todo o mundo pedindo que tudo chore por Baldr. E tudo chora: pessoas, animais, terra, pedras, árvores, metais. Ao voltar, os mensageiros encontram uma figura feminina sentada em uma caverna. Pedem que chore. Ela responde que não teve nada de bom vindo de Baldr e que Hel fique com o que tem. Snorri conclui: acredita-se que fosse Loki.A outra versão
Nenhuma das duas pode ser considerada a versão original. Elas atestam a existência de tradições distintas sobre as mesmas figuras, em regiões diferentes. A versão islandesa se tornou padrão porque foi mais bem preservada e mais traduzida, não porque tenha mais direito à autenticidade.A figura central e suas contradições estão em Baldr.
O que vem depois
A morte de Baldr desencadeia a captura de Loki e sua punição, e é a punição que cria a condição do Ragnarök: quando Loki se soltar, o mundo acaba. É também o momento em que os deuses perdem algo que não conseguem recuperar nem por força nem por astúcia — as duas ferramentas que sempre funcionaram. A partir daqui, a narrativa segue em uma só direção.Fontes deste guia
As obras abaixo são os textos medievais e os materiais arqueológicos em que este guia se apoia. Nenhum deles é contemporâneo aos eventos narrados, e as traduções disponíveis divergem em pontos importantes.
- Gylfaginning (Edda em Prosa) Fonte da narrativa completa, com todos os episódios em sequência.
- Völuspá e Baldrs draumar (Edda Poética) Registram a morte e os sonhos premonitórios em versos concisos, sem o detalhamento da prosa.
- Lokasenna (Edda Poética) Loki assume responsabilidade pelo ocorrido diante dos deuses reunidos.
- Gesta Danorum, de Saxo Grammaticus Versão dinamarquesa radicalmente diferente, com os personagens como guerreiros humanos rivais.
Uma explicação mais longa sobre a formação, os limites e as divergências dessas obras está na página de fontes. Encontrou um erro ou uma imprecisão? Peça uma correção.
Continue a leitura
- Deuses e deusas Baldr Quem é Baldr, o que as fontes dizem sobre sua morte e seu retorno, e como a versão dinamarquesa contradiz quase tudo.
- Deuses e deusas Loki A trajetória de Loki das travessuras que beneficiam os deuses ao crime que sela o destino de todos, e o que as fontes realmente atribuem a ele.
- Sagas e acontecimentos Ragnarök A sequência completa do fim do mundo segundo as fontes, os combates decisivos, o que sobrevive e o que o episódio significa.

