Norse Ice Mitologia nórdica

Deuses e deusas

Baldr: a morte que ninguém consegue impedir

O mais querido dos deuses morre por um acidente cuidadosamente preparado, e a partir daí nada em Asgard volta ao lugar. É o ponto em que o fim do mundo deixa de ser profecia e vira processo.

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Baldr é descrito como o mais belo, o mais sábio e o mais gentil dos deuses, e essa é praticamente toda a caracterização que as fontes oferecem. Ele não tem feitos, não tem viagens, não tem adversários. Existe para morrer — e a morte dele é o evento mais consequente de toda a mitologia nórdica.

Uma figura definida pela ausência de conflito

A descrição de Baldr é quase inteiramente positiva e quase inteiramente vazia. Snorri diz que ele é o melhor e que todos o elogiam, que sua aparência é luminosa e que nenhuma de suas decisões pode ser mantida — uma observação curiosa e nunca explicada, que alguns leem como sinal de impotência sob a aparência de virtude. Essa opacidade é significativa. Diferentemente de Odin, Thor ou Loki, Baldr não age. Ele é objeto: de amor, de proteção, de luto, de disputa. Sua função narrativa não é fazer, e sim ser perdido.

A sequência

  1. Os sonhos

    Baldr passa a sonhar com a própria morte. Os deuses se alarmam. Odin cavalga até o mundo dos mortos e desperta uma vidente, que confirma que tudo já está preparado para receber Baldr.

  2. Os juramentos

    Frigg obtém de todas as coisas a promessa de não feri-lo. O visco é dispensado por ser jovem demais.

  3. O jogo

    Confiantes na invulnerabilidade, os deuses passam a se divertir atirando objetos em Baldr e vendo-os não causar dano. A cena é festiva.

  4. O arremesso

    Loki descobre a exceção, prepara o visco e o entrega a Höðr, o irmão cego, que estava de fora da brincadeira por não poder participar. Guiado por Loki, ele arremessa. Baldr cai morto.

  5. O funeral

    O corpo é levado ao navio Hringhorni. Nanna morre de dor e é colocada ao lado dele. Odin deposita o anel Draupnir na pira. O navio é incendiado e lançado ao mar.

  6. A negociação

    Hermóðr cavalga nove noites até o mundo dos mortos. Hel concorda em devolver Baldr sob uma condição: que todos os seres do mundo chorem por ele.

  7. A recusa

    Todos choram, exceto uma figura feminina em uma caverna, que declara não ter nada a lamentar. Snorri afirma que era Loki. Baldr permanece entre os mortos.

A narrativa completa, com análise das variantes, está em A morte de Baldr.

O que muda depois

A morte de Baldr é o ponto de virada estrutural da mitologia nórdica. Antes dela, o Ragnarök é uma previsão distante; depois, é um processo em curso. Três coisas acontecem em sequência. Os deuses perdem a figura que representava aquilo que eles supostamente defendiam. Loki deixa de ser ambíguo e passa a ser inimigo declarado, sendo capturado e acorrentado. E a punição de Loki cria a condição para o fim: quando ele se soltar, o mundo acaba.

Baldr morre por acidente, mas o acidente foi construído peça por peça, e cada etapa contou com a colaboração involuntária de quem tentava protegê-lo.

Estrutura do episódio na Edda em Prosa

O retorno

Völuspá descreve o mundo após o Ragnarök: a terra emerge do mar, verde e nova, e os deuses sobreviventes se reúnem. Entre eles estão Baldr e Höðr, reconciliados. O que foi perdido volta, mas apenas depois que tudo tiver sido destruído. Esse detalhe alimentou muita discussão. A estrutura de morte, luto, destruição e retorno de uma figura luminosa tem paralelos evidentes com temas cristãos, e o poema foi registrado em ambiente já cristão. As posições vão desde ver o trecho como interpolação até defender que o padrão pertence a tradições muito mais antigas. Não há decisão possível com a evidência disponível.

A versão dinamarquesa

Fontes deste guia

As obras abaixo são os textos medievais e os materiais arqueológicos em que este guia se apoia. Nenhum deles é contemporâneo aos eventos narrados, e as traduções disponíveis divergem em pontos importantes.

  • Völuspá e Baldrs draumar (Edda Poética) Registram a morte em versos concisos e os sonhos que a anunciam.
  • Gylfaginning (Edda em Prosa) Traz o relato narrativo completo, com os juramentos, o visco, o funeral e a viagem de Hermóðr.
  • Gesta Danorum, de Saxo Grammaticus Apresenta uma versão inteiramente distinta, em que Baldr e Höðr são rivais humanos por uma mulher.

Uma explicação mais longa sobre a formação, os limites e as divergências dessas obras está na página de fontes. Encontrou um erro ou uma imprecisão? Peça uma correção.