Norse Ice Mitologia nórdica

Deuses e deusas

Loki: o aliado que se torna inimigo

Não é deus do caos nem do mal. É uma figura sem lugar fixo: de linhagem jötunn, morando entre os Æsir, útil e perigoso na mesma medida — até deixar de ser útil.

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Loki come à mesa dos deuses, viaja com Thor, resolve problemas de Asgard e é chamado de companheiro de Odin. Também gera os três seres que acabarão com o mundo, provoca a morte do mais amado dos Æsir e, no fim, comanda o lado oposto na batalha final. As fontes não explicam a virada. Elas apenas a registram.

Essa falta de explicação é o que torna a figura difícil e interessante. Loki não tem arco moral, não se converte ao mal por um motivo narrado, e não é apresentado como o oposto de ninguém. Ele simplesmente ocupa, desde o começo, uma posição que não pertence a lugar nenhum.

O que ele é, exatamente

Uma pergunta simples sem resposta simples. Loki é frequentemente listado entre os Æsir, participa das assembleias e é tratado como parte do grupo. Mas sua ascendência é jötunn pelo pai, ele não tem atribuição divina identificável, não há evidência de que alguém o cultuasse e nenhuma fonte lhe atribui domínio sobre alguma esfera do mundo. A designação mais precisa talvez seja funcional: Loki é o elemento que introduz movimento. Sem ele, nada acontece em Asgard. Praticamente todos os tesouros dos deuses existem porque ele causou um problema que precisou ser resolvido; praticamente todas as crises externas começam com uma decisão sua.

A fase útil

Em boa parte das histórias, Loki é o solucionador. O padrão se repete: ele provoca ou permite um desastre, é ameaçado pelos deuses, e resolve a situação com um artifício que deixa Asgard em melhor posição do que estava.
  • O cabelo de Sif. Corta-o por malícia, é obrigado a repará-lo e acaba trazendo dos anões um conjunto de tesouros que inclui Mjölnir, Gungnir, Skíðblaðnir, Draupnir e Gullinbursti.
  • A muralha de Asgard. Convence os deuses a aceitar o contrato de um construtor cujo preço é impossível de pagar; quando a obra ameaça terminar no prazo, transforma-se em égua para distrair o cavalo do construtor. Do episódio nasce Sleipnir.
  • As maçãs de Iðunn. Entrega a deusa a um jötunn sob coação, provocando o envelhecimento de todos os deuses, e é forçado a resgatá-la.
  • A recuperação do martelo. É quem propõe o disfarce de Thor como noiva e o acompanha na expedição.

Vários desses episódios têm guias próprios; comece por O martelo roubado de Thor.

Os filhos

Com a jötunn Angrboða, Loki gera três seres que as fontes tratam como ameaças cósmicas: o lobo Fenrir, a serpente Jörmungandr e Hel, que governa os mortos comuns. Alertados por profecias, os deuses os separam: a serpente é lançada ao mar, Hel recebe o domínio dos mortos, Fenrir é criado em Asgard até ser acorrentado. Com Sigyn, sua esposa, tem dois filhos cuja função na narrativa é terrível: são usados como instrumento da punição do pai. E há Sleipnir, gerado por ele próprio em forma de égua. A mudança de forma e de sexo é recorrente nas histórias de Loki, e é usada contra ele como acusação em Lokasenna — sinal de que, naquele contexto cultural, o traço era lido como transgressão séria.

A virada

  1. A morte de Baldr

    Descobre a única coisa que pode ferir Baldr, entrega a arma ao irmão cego do deus e o orienta a arremessá-la. Diferente de tudo o que fez antes, este ato não tem reparação nem benefício.

  2. A recusa do pranto

    Quando o retorno de Baldr depende de todos os seres chorarem por ele, uma figura feminina em uma caverna se recusa. A fonte afirma que era Loki disfarçado. É o momento em que ele fecha a porta deliberadamente.

  3. O banquete dos insultos

    Em Lokasenna, ele invade uma festa e acusa cada divindade presente de covardia, infidelidade ou vergonha. Recebe acusações equivalentes. Quando Thor chega, ele foge.

  4. A captura

    Esconde-se em forma de salmão e é pego com uma rede que ele próprio havia inventado. Um de seus filhos é transformado em lobo e mata o outro; com as entranhas do morto, Loki é amarrado sob uma serpente que goteja veneno.

  5. A vigília de Sigyn

    Sua esposa permanece ao lado segurando um recipiente para aparar o veneno. Quando precisa esvaziá-lo, as gotas caem sobre o rosto dele, e seus espasmos de dor sacodem a terra.

A única figura que permanece ao lado de Loki depois de tudo é Sigyn, que não fala uma linha e cuja lealdade não recebe nenhuma explicação.

Detalhe do relato preservado na Edda em Prosa

Como ler a figura

No fim

Livre das amarras quando o Ragnarök começa, Loki conduz a embarcação Naglfar com as forças que avançam contra Asgard. Encontra Heimdall no campo de batalha, e os dois se matam mutuamente — um par simétrico, o vigia e o infiltrado, encerrando a conta.

Fontes deste guia

As obras abaixo são os textos medievais e os materiais arqueológicos em que este guia se apoia. Nenhum deles é contemporâneo aos eventos narrados, e as traduções disponíveis divergem em pontos importantes.

  • Lokasenna (Edda Poética) Poema em que Loki insulta as divindades reunidas uma a uma e recebe acusações em troca.
  • Völuspá (Edda Poética) Registra sua punição e seu papel na sequência que leva ao fim do mundo.
  • Gylfaginning e Skáldskaparmál (Edda em Prosa) Fornecem quase todos os episódios narrativos: os tesouros dos deuses, a morte de Baldr, a fuga e a captura.
  • Ausência de evidência de culto Não há nomes de lugares, amuletos ou nomes pessoais que indiquem devoção a Loki, ao contrário do que ocorre com outras divindades.

Uma explicação mais longa sobre a formação, os limites e as divergências dessas obras está na página de fontes. Encontrou um erro ou uma imprecisão? Peça uma correção.