A Edda Poética: o manuscrito que guarda quase tudo
Um caderno de pergaminho copiado por volta de 1270 por alguém cujo nome não sabemos, perdido por quase quatro séculos, redescoberto por acaso e devolvido à Islândia em 1971.
Se houvesse um único objeto a ser salvo de um incêndio na história dos estudos nórdicos, seria este: um caderno de pergaminho com cerca de quarenta e cinco folhas, escrito por uma pessoa anônima na Islândia do século XIII. Sem ele, o que saberíamos de mitologia nórdica caberia em um capítulo curto.
A história do objeto
A composição dos poemas
Os poemas são anteriores ao manuscrito, e muito. Vários preservam vocabulário e formas arcaicas; alguns provavelmente circulavam oralmente desde antes da conversão. A datação individual é objeto de disputa permanente.
A cópia
Por volta de 1270, um escriba islandês copia o conjunto a partir de um exemplar anterior. Ele não assina, não escreve prefácio e não explica por que reuniu aqueles textos.
Os séculos de silêncio
O manuscrito desaparece do registro por quase quatrocentos anos. Não há menção a ele nesse intervalo.
A redescoberta
Em 1643, o bispo islandês Brynjólfur Sveinsson entra em posse do códice. Ele o atribui equivocadamente a um erudito islandês do século XII, atribuição que se mostrou infundada e acabou abandonada.
A ida para a Dinamarca
Em 1662, o manuscrito é enviado ao rei dinamarquês, o que lhe rendeu o nome de Codex Regius, e permanece em Copenhague por três séculos.
O retorno
Em 1971, após longa negociação entre Islândia e Dinamarca, o manuscrito é devolvido. Sua chegada foi acompanhada por multidões e é lembrada como momento de afirmação cultural islandesa.
O que o manuscrito contém
Poemas mitológicos
- Völuspá — uma vidente narra a Odin o começo e o fim do mundo. É o poema mais importante do corpus e a principal fonte sobre a criação e o Ragnarök.
- Hávamál — uma coletânea heterogênea de conselhos práticos, máximas sobre hospitalidade e amizade, episódios em primeira pessoa e uma seção sobre encantamentos. Inclui o relato do sacrifício de Odin na árvore.
- Vafþrúðnismál — disputa de conhecimento entre Odin e um jötunn especialmente sábio.
- Grímnismál — Odin, torturado entre duas fogueiras, enumera moradas divinas, rios, animais e seus próprios nomes.
- Skírnismál — o desejo de Freyr por Gerðr e a coação exercida por seu mensageiro.
- Hárbarðsljóð — troca de insultos entre Thor e um barqueiro que provavelmente é Odin disfarçado.
- Hymiskviða — a busca por um caldeirão e a pesca da serpente do mundo.
- Lokasenna — Loki insulta cada divindade em um banquete e recebe acusações em troca.
- Þrymskviða — o roubo do martelo e o disfarce de Thor como noiva.
- Völundarkviða — a história de um ferreiro capturado e sua vingança; pertence ao material heroico, mas figura entre os primeiros.
- Alvíssmál — Thor impede o casamento de sua filha com um anão por meio de um teste de conhecimento.
Poemas heroicos
A segunda parte do manuscrito trata de heróis humanos: o ciclo de Helgi, e depois a longa sequência sobre o tesouro amaldiçoado, o matador do dragão, a valquíria traída e a destruição de uma dinastia inteira. É a narrativa mais extensa do corpus nórdico e tem paralelos em tradições germânicas continentais.Vários desses poemas estão resumidos nos guias da seção Sagas e acontecimentos.
A lacuna
Em determinado ponto do ciclo heroico, faltam folhas. Um caderno inteiro foi perdido, provavelmente antes da redescoberta do manuscrito. O trecho perdido cobria episódios centrais da narrativa heroica. Seu conteúdo só pode ser inferido a partir de uma versão em prosa posterior, que resume a mesma história e provavelmente se apoiava nos poemas ausentes. É uma perda irrecuperável e um lembrete útil: o que temos é o que sobrou, não o que existia.A forma dos poemas
A poesia eddica usa métricas relativamente simples, organizadas por aliteração e não por rima. As duas principais são:- Uma métrica narrativa, empregada na maior parte dos poemas de ação e catálogo.
- Uma métrica de diálogo e sentença, com estrofes de estrutura diferente, usada em poemas de conselho e disputa verbal.
Por que é a fonte mais valiosa
Quando as duas discordam, o hábito de preferir a versão mais organizada costuma ser exatamente a decisão errada.
A outra obra está em A Edda em Prosa.
Fontes deste guia
As obras abaixo são os textos medievais e os materiais arqueológicos em que este guia se apoia. Nenhum deles é contemporâneo aos eventos narrados, e as traduções disponíveis divergem em pontos importantes.
- Codex Regius (GKS 2365 4to) O manuscrito em si, hoje conservado na Islândia. Copiado por volta de 1270 a partir de material mais antigo, hoje perdido.
- AM 748 I 4to Manuscrito fragmentário que preserva alguns poemas ausentes do Codex Regius e variantes de outros.
- Hauksbók Compilação islandesa que contém uma versão de Völuspá com diferenças em relação à do Codex Regius.
- Edda em Prosa Cita estrofes de poemas eddicos, o que permite comparar leituras e, em alguns casos, recuperar versos.
Uma explicação mais longa sobre a formação, os limites e as divergências dessas obras está na página de fontes. Encontrou um erro ou uma imprecisão? Peça uma correção.
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