A Edda em Prosa: um manual técnico que virou nossa principal fonte
Snorri Sturluson não queria escrever um livro de mitologia. Queria ensinar poetas a compor. Precisou explicar os mitos porque, sem eles, ninguém entenderia mais a linguagem poética.
A obra mais citada sobre mitologia nórdica foi escrita como material didático para poetas. Seu autor não era sacerdote, não era crente na religião que descreve e não pretendia preservá-la: queria salvar uma técnica literária que estava morrendo porque as pessoas não conheciam mais as referências que ela exigia.
Quem foi Snorri
Snorri Sturluson pertenceu a uma das famílias mais poderosas da Islândia de seu tempo. Foi criado em uma casa de grande prestígio, tornou-se um dos homens mais ricos do país, ocupou duas vezes a função de responsável por declarar a lei na assembleia geral e envolveu-se profundamente nos conflitos políticos que marcaram o período. Esteve na Noruega, manteve relações com a corte real e acabou implicado nas disputas entre a autonomia islandesa e a ambição norueguesa sobre a ilha. Foi morto em 1241, em sua propriedade, por homens ligados a essas disputas. É importante reter esse perfil. O autor de nossa principal fonte sobre mitologia nórdica era um político cristão do século XIII, com interesses concretos, escrevendo em meio a uma guerra civil.As quatro partes
Prólogo
Enquadramento erudito que deriva os deuses nórdicos de figuras humanas ligadas ao mundo antigo mediterrâneo. É a parte mais claramente artificial e a menos útil como fonte sobre a tradição.
Gylfaginning — "a enganação de Gylfi"
Um rei chamado Gylfi visita, disfarçado, um salão onde três figuras respondem a suas perguntas. Ao longo do diálogo, expõem toda a cosmologia: a criação, os deuses, os mundos, o Ragnarök. É daqui que vem a maior parte das narrativas mitológicas conhecidas.
Skáldskaparmál — "a linguagem da poesia"
A parte técnica central. Explica como construir perífrases poéticas e, para isso, precisa contar os mitos que as sustentam. O hidromel da poesia, os tesouros dos deuses e vários outros episódios aparecem aqui.
Háttatal — "o catálogo de métricas"
Um poema longo composto pelo próprio Snorri em honra a figuras da realeza norueguesa, em que cada estrofe demonstra uma forma métrica diferente, com comentário. É a parte menos lida e a mais claramente didática.
A moldura narrativa e o que ela revela
Gylfaginning tem uma estrutura engenhosa. O rei Gylfi chega disfarçado a um salão e é recebido por três figuras que se apresentam com nomes que remetem a Odin. Ele faz perguntas; elas respondem. A cada resposta, mais mitologia é exposta. No fim, ouve-se um estrondo, o salão desaparece e Gylfi se vê sozinho em campo aberto. O nome da seção é literalmente "a enganação de Gylfi". Snorri está avisando o leitor de que tudo o que acabou de ser narrado foi contado por figuras enganadoras dentro de uma ilusão. É um dispositivo que permite ao autor cristão expor a mitologia inteira sem endossá-la.O texto que mais informa sobre mitologia nórdica é apresentado, por seu próprio autor, como uma ilusão contada por impostores.
O que a obra acrescenta
Uma parte significativa do que se conhece sobre mitologia nórdica existe apenas aqui:- A narrativa completa da morte de Baldr, com o funeral e a viagem de Hermóðr.
- A viagem de Thor a Útgarðr e as provas ilusórias.
- A história da construção da muralha de Asgard e o nascimento de Sleipnir.
- O relato detalhado do aprisionamento de Fenrir.
- A fabricação dos tesouros dos deuses pelos anões.
- A narrativa completa do hidromel da poesia.
- A descrição sistemática dos mundos e das moradas divinas.
Por que ler com cautela
O paradoxo final
Snorri escreveu para salvar uma técnica literária. A técnica não se salvou: a poesia escáldica praticamente desapareceu nos séculos seguintes, substituída por outras formas. Mas o material de apoio que ele reuniu sobreviveu, foi copiado, traduzido e lido em toda parte, e se tornou a base do que o mundo inteiro conhece hoje como mitologia nórdica. A obra falhou no que pretendia fazer e teve êxito absoluto em algo que seu autor provavelmente considerava secundário.A outra obra fundamental está em A Edda Poética; o panorama geral de fontes está na página de fontes e bibliografia.
Fontes deste guia
As obras abaixo são os textos medievais e os materiais arqueológicos em que este guia se apoia. Nenhum deles é contemporâneo aos eventos narrados, e as traduções disponíveis divergem em pontos importantes.
- Edda em Prosa, de Snorri Sturluson Composta por volta de 1220. Conservada em quatro manuscritos principais, que apresentam diferenças de conteúdo e de ordem entre si.
- Heimskringla, atribuída ao mesmo autor História dos reis noruegueses, cuja primeira parte trata os deuses como antigos governantes humanos.
- Sturlunga saga Compilação islandesa que narra os conflitos políticos do período e fornece informação sobre a vida e a morte de Snorri.
Uma explicação mais longa sobre a formação, os limites e as divergências dessas obras está na página de fontes. Encontrou um erro ou uma imprecisão? Peça uma correção.
Continue a leitura
- Fontes históricas A Edda Poética A história do Codex Regius, o que ele contém, como está organizado, o que se perdeu e por que é a fonte mais próxima da tradição antiga.
- Sagas e acontecimentos O hidromel da poesia A narrativa completa da origem da poesia, uma cadeia de assassinatos e trapaças que explica por que poetas nórdicos chamavam seus versos de bebida.
- Comece por aqui Como essas histórias chegaram até nós O caminho entre a tradição oral pré-cristã e os manuscritos do século XIII, e o que se perde e se altera em cada etapa desse percurso.
