Norse Ice Mitologia nórdica

Sagas e acontecimentos

A guerra entre Æsir e Vanir: a primeira guerra do mundo

Um conflito narrado em versos obscuros, resolvido por troca de reféns, com uma decapitação no meio e um nascimento estranho no fim. É o episódio mais mal preservado de importância central.

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Esta é, provavelmente, a narrativa mais importante do corpus nórdico que sobreviveu em pior estado. A guerra entre as duas famílias divinas é mencionada em versos que não explicam o que aconteceu, complementados por um relato em prosa escrito séculos depois por um autor que estava sistematizando material fragmentário.

O resultado é um episódio central do qual quase tudo é reconstrução.

O episódio de Gullveig

Völuspá apresenta, imediatamente antes da guerra, a história de uma figura chamada Gullveig. Ela é atravessada por lanças e queimada três vezes no salão de Odin — e três vezes renasce. O poema acrescenta que passou a ser chamada de Heiðr, que praticava magia e que era bem-vinda entre mulheres de má índole. Em seguida, os deuses se reúnem para deliberar se deveriam pagar tributo ou se todos deveriam compartilhar a oferenda. Odin lança sua lança sobre o exército, e a guerra começa. A conexão entre os dois momentos não é explicitada. É uma inferência, ainda que quase universal, que o tratamento dado a Gullveig seja a causa do conflito.

A guerra em si

O poema é econômico. Registra que a lança de Odin voou sobre o exército, que a primeira guerra do mundo estava em curso e que a muralha da fortaleza dos Æsir foi rompida. Os Vanir, com sua magia, pisavam o campo. Não há descrição de batalhas, de duelos, de vitórias parciais nem de duração. Snorri acrescenta que os dois lados infligiram grandes danos um ao outro e que nenhum conseguiu prevalecer, o que levou à negociação.

O acordo e o que deu errado

  1. A troca de reféns

    Os Vanir enviam Njörðr e seu filho Freyr; Freyja acompanha. Os Æsir enviam Hœnir, descrito como imponente e adequado para liderar, acompanhado de Mímir, o mais sábio entre eles.

  2. A frustração

    Entre os Vanir, Hœnir é feito chefe. Mas sempre que precisa decidir algo sem Mímir presente, responde que outros que decidam. Os Vanir concluem que foram enganados na troca.

  3. A decapitação

    Cortam a cabeça de Mímir e a enviam de volta aos Æsir. A resposta ao engano percebido é dirigida não ao impostor, mas ao conselheiro.

  4. A preservação

    Odin trata a cabeça com ervas, pronuncia encantamentos sobre ela e passa a consultá-la. Ela continua falando e revelando segredos.

  5. O selo do pacto

    Em outra ocasião, os dois grupos selam a paz cuspindo em um mesmo recipiente. Para que o gesto não se perdesse, criam do conteúdo um ser: Kvasir, o mais sábio que já existiu.

O que acontece com Kvasir depois está em O hidromel da poesia.

A cabeça de Mímir

Este é um dos pontos em que as fontes se contradizem de forma incômoda. Em algumas passagens, Mímir é uma cabeça preservada que Odin consulta. Em outras, é o guardião de um poço de sabedoria sob uma raiz de Yggdrasil, onde Odin deixou um olho. Os dois Mímir podem ser a mesma figura em momentos diferentes, duas figuras distintas cujos nomes convergiram, ou tradições paralelas que Snorri tentou reconciliar. Não há como decidir. O que permanece constante é a função: Mímir é a fonte externa de conhecimento a que Odin recorre, e o acesso a ele custa caro — um olho em uma versão, uma decapitação na outra.

O que a guerra significa

Há ainda uma terceira posição, mais cética: a de que a guerra pode ser menos central do que parece, e que a nitidez dos dois grupos deve bastante à sistematização de Snorri. Nesse caso, o episódio seria a explicação medieval para a coexistência de divindades de perfis diferentes em um mesmo panteão.

Um episódio sobre o qual sabemos pouco acabou se tornando a chave explicativa de todo o panteão. Vale lembrar com que pouco material essa chave foi construída.

Observação sobre o estado das fontes

A discussão sobre os dois grupos está em Æsir e Vanir.

Fontes deste guia

As obras abaixo são os textos medievais e os materiais arqueológicos em que este guia se apoia. Nenhum deles é contemporâneo aos eventos narrados, e as traduções disponíveis divergem em pontos importantes.

  • Völuspá (Edda Poética) Narra o episódio em poucas estrofes densas e alusivas, cuja interpretação é disputada há mais de um século.
  • Skáldskaparmál (Edda em Prosa) Fornece o relato da troca de reféns, da decapitação de Mímir e do nascimento de Kvasir.
  • Ynglinga saga (Heimskringla) Conta a mesma história como conflito entre povos humanos, com os deuses transformados em chefes.

Uma explicação mais longa sobre a formação, os limites e as divergências dessas obras está na página de fontes. Encontrou um erro ou uma imprecisão? Peça uma correção.